Espera por mim...

Sentado, de pernas cruzadas, junto ao cruzeiro da aldeia, o Sr. Manuel ajeitava o chapéu preto que, além de servir para tapar os primeiros raios de sol que começavam a dar o ar da sua graça, servia sobretudo para esconder as lágrimas que lhe caíam por entre as poucas palavras. 

Apesar da idade, 81 primaveras, o Sr. Manuel não tinha vergonha de demonstrar os seus sentimentos e de se revelar ainda apaixonado pela mulher da sua vida, que tinha perdido para o cancro há mais de 10 anos. 

Ana era a única visita que o Sr. Manuel recebia em casa desde que perdeu a mulher. O centro de dia levava as refeições e também alguma companhia. Para tudo o resto, dizia ele, ainda “dava conta do recado”. Ninguém me traz a “minha Maria” de volta, desabafava por entre lágrimas. O amor dos dois nasceu assim que vieram ao mundo mas só o descobriram quando já andavam na escola. “Éramos os melhores amigos. Íamos juntos o caminho todo. Era eu que a ajudava a carregar a mochila e que lhe segurava o guarda-chuva”.

O tempo foi passando e nem mesmo a guerra os afastou. O Sr. Manuel foi um dos primeiros soldados portugueses que no longínquo ano de 1961 desembarcou no porto de Luanda, depois de duas semanas passadas no mar. “Sobre os tempos do Ultramar, nem uma palavra” era assim que respondia sempre que Ana tentava resgatar essas memórias. E prosseguiu: “Assim que regressei, casámos e troc mos juras de amor eterno”. E assim foi. 

Viveram um para o outro mais de meio século. Nunca tiveram filhos, porque, acredita, “Deus não quis”. E, agora, desde que a sua Maria partiu, que os dias passavam devagar, muito devagarinho, entre o aconchego da lareira no inverno, e o calor dos raios de sol, sentado junto ao cruzeiro. E, sentado, junto ao cruzeiro, espera que os dias pas sem e o levem para junto do primeiro e único amor da vida! “Sabe, menina, é que um homem também chora!” Levantou-se e murmurou bem baixinho: “Espera por mim, Maria, que eu já vou!”










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